MENSAGEM DO PAPA BENTO XVI PARA O LXXXI DIA MISSIONÁRIO MUNDIAL 2007
Queridos irmãos e irmãs!
Por ocasião do próximo Dia Missionário Mundial gostaria de convidar todo o
povo de Deus Pastores, sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos para uma
reflexão comum sobre a urgência e a importância que reveste, também
neste nosso tempo, a acção missionária da Igreja. De facto, não cessam de
ecoar, como chamada universal e apelo urgente, as palavras com as quais
Jesus Cristo, crucificado e ressuscitado antes de subir ao Céu, confiou aos
Apóstolos o mandamento missionário: "Ide, pois, ensinai todas as nações,
baptizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo ensinando-as a
cumprir tudo quanto vos tenho mandado". E acrescentou: "Eu estarei
sempre convosco, até ao fim do mundo" (Mt 28, 19-20). Na empenhativa
obra de evangelização ampara-nos e acompanha-nos a certeza de que Ele,
o dono da messe, está connosco e guia incessantemente o seu povo. É Cristo
a fonte inexaurível da missão da Igreja. Este ano, além disso, um ulterior
motivo nos estimula a um renovado compromisso missionário: de facto
celebra-se o 50º aniversário da Encíclica do Servo de Deus Pio XII Fidei donum,
com a qual foi promovida e encorajada a cooperação entre as Igrejas para
a missão ad gentes.
"Todas as Igrejas para o mundo inteiro": é este o tema escolhido para o
próximo Dia Missionário Mundial. Ele convida as Igrejas locais de cada
Continente a uma partilhada consciência sobre a urgente necessidade de
relançar a acção missionária perante os numerosos e graves desafios do
nosso tempo. Certamente são diferentes as condições em que vive a
humanidade, e nestes decénios foi realizado um grande esforço para a
difusão do Evangelho, especialmente a partir do Concílio Vaticano II.
Contudo, permanece ainda muito a fazer para responder ao apelo
missionário que o Senhor nunca se cansa de fazer a cada baptizado. Ele
continua a convidar, em primeiro lugar, as Igrejas chamadas de antiga
tradição, que no passado forneceram às missões, além dos meios materiais,
também um número consistente de sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos,
dando vida a uma eficaz cooperação entre comunidades cristãs. Desta
cooperação surgiram abundantes frutos apostólicos quer para as jovens
Igrejas em terras de missão, quer para as realidades eclesiais de onde
provinham os missionários. Perante o progredir da cultura secularizada, que
por vezes parece invadir cada vez mais as sociedades ocidentais,
considerando além disso a crise da família, a diminuição das vocações e o
progressivo envelhecimento do clero, estas Igrejas correm o risco de se
fecharem em si mesmas, de olhar com pouca esperança para o futuro e de
diminuir o seu esforço missionário. Mas é precisamente este o momento de se
abrir com confiança à Providência de Deus, que jamais abandona o seu
povo e que, com o poder do Espírito Santo, o guia para o cumprimento do
seu desígnio eterno de salvação.
O Bom Pastor convida a dedicar-se generosamente à missio ad gentes
também as Igrejas de recente evangelização. Mesmo encontrando não
poucas dificuldades e obstáculos no seu desenvolvimento, estas
comunidades estão em crescimento constante. Algumas felizmente
abundam de sacerdotes e de pessoas consagradas, não poucos dos quais,
mesmo sendo tantas as necessidades in loco, são contudo enviados para
desempenhar o seu ministério pastoral e o seu serviço apostólico noutras
partes, também nas terras de antiga evangelização. Assiste-se desta forma a
um providencial "intercâmbio de dons", que redunda em benefício para todo
o corpo místico de Cristo. Desejo fervorosamente que a cooperação
missionária se intensifique, valorizando as potencialidades e os carismas de
cada um. Além disso, espero que o Dia Missionário Mundial contribua para
tornar cada vez mais conscientes todas as comunidades cristãs e cada
baptizado que a chamada de Cristo é universal para propagar o seu Reino
até aos extremos confins do planeta. "A Igreja é por sua natureza missionária
escreve João Paulo II na Encíclica Redemptoris missio porque o mandato de
Cristo não é algo contingente e exterior, mas atinge o próprio coração da
Igreja. Segue-se daí que a Igreja toda e cada uma das Igrejas são enviadas
aos não-cristãos. Mesmo as Igrejas jovens... devem participar quanto antes e
de facto na missão universal da Igreja, enviando também elas, por todo o
mundo, missionários a pregar o Evangelho, mesmo se sofrem escassez de
clero" (n. 61).
Cinquenta anos do histórico apelo do meu predecessor Pio XII com a
Encíclica Fidei donum para uma cooperação entre as Igrejas ao serviço da
missão, gostaria de recordar que o anúncio do Evangelho continua a revestir
as características da actualidade e da urgência. Na mencionada Encíclica
Redemptoris missio, o Papa João Paulo II, por seu lado, reconhecia que "a
missão da Igreja é mais vasta que a "comunhão entre as Igrejas"; ela deve
estar orientada também e sobretudo no sentido da missionariedade
específica" (n. 65). O compromisso missionário permanece portanto, como foi
várias vezes recordado, o primeiro serviço que a Igreja deve à humanidade
de hoje, para orientar e evangelizar as transformações culturais, sociais e
éticas; para oferecer a salvação de Cristo ao homem do nosso tempo, em
tantas partes do mundo humilhado e oprimido por causa de pobrezas
endémicas, de violência e de negação sistemática dos direitos humanos.
A esta missão universal a Igreja não se pode subtrair; ela constitui para a
Igreja uma força constrangedora. Tendo Cristo confiado em primeiro lugar a
Pedro e aos Apóstolos o mandato missionário, ela compete hoje antes de
tudo ao Sucessor de Pedro, que a Providência divina escolheu como
fundamento visível da unidade da Igreja, e aos Bispos directamente
responsáveis da evangelização quer como membros do Colégio episcopal,
quer como Pastores das Igrejas particulares (cf. Redemptoris missio, 63).
Portanto, dirijo-me aos Pastores de todas as Igrejas colocados pelo Senhor
como guias do seu único rebanho, para que partilhem a preocupação do
anúncio e da difusão do Evangelho. Foi precisamente esta preocupação
que estimulou, há cinquenta anos, o Servo de Deus Pio XII a tornar a
cooperação missionária mais correspondente às exigências dos tempos.
Especialmente perante as perspectivas da evangelização ele pediu às
comunidades de antiga evangelização que enviassem sacerdotes em apoio
das Igrejas de recente formação. Deu assim vida a um novo "sujeito
missionário" que, desde as primeiras palavras da Encíclica, tirou precisamente
o nome de "Fidei donum". Em relação a isto escreveu: "Considerando por um
lado as multidões sem conta de filhos nossos que, sobretudo nos Países de
antiga tradição cristã, participam do bem da fé, e por outro a multidão ainda
mais numerosa dos que ainda aguardam a mensagem da salvação,
sentimos o ardente desejo de vos exortar, Veneráveis Irmãos, a amparar com
o vosso zelo a causa santa da expansão da Igreja no mundo". E
acrescentou: "Queira Deus que após o nosso apelo o espírito missionário
penetre mais profundamente no coração de todos os sacerdotes e, através
do seu ministério, inflame todos os fiéis" (AAS XLIX 1957, 226).
Demos graças ao Senhor pelos frutos abundantes obtidos por esta
cooperação missionária em África e noutras regiões da terra. Multidões de
sacerdotes, depois de terem deixado as comunidades de origem, dedicaram
as suas energias apostólicas ao serviço de comunidades acabadas de surgir,
em zonas de pobreza e em vias de desenvolvimento. Entre eles encontram-se
não poucos mártires que, ao testemunho da palavra e à dedicação
apostólica, uniram o sacrifício da vida. Também não podemos esquecer os
numerosos religiosos, religiosas e leigos voluntários que, juntamente com os
presbíteros, se prodigalizaram para difundir o Evangelho até aos extremos
confins do mundo. O Dia Missionário Mundial seja ocasião para recordar na
oração estes nossos irmãos e irmãs na fé e quantos continuam a
prodigalizar-se no vasto campo missionário. Peçamos a Deus que o seu
exemplo suscite em toda a parte novas vocações e uma renovada
consciência missionária no povo cristão. De facto, cada comunidade cristã
nasce missionária, e é precisamente com base na coragem de evangelizar
que se mede o amor dos crentes para com o Senhor. Poderíamos dizer que,
para cada um dos fiéis, não se trata simplesmente de colaborar na
actividade de evangelização, mas de se sentir eles mesmos protagonistas e
co-responsáveis da missão da Igreja. Esta co-responsabilidade exige que
cresça a comunhão entre as comunidades e se incremente a ajuda
recíproca no que diz respeito quer ao pessoal (sacerdotes, religiosos,
religiosas e leigos voluntários) quer ao uso dos meios hoje necessários para
evangelizar.
Queridos irmãos e irmãs, o mandato missionário confiado por Cristo aos
Apóstolos diz respeito verdadeiramente a todos nós. O Dia Missionário
Mundial seja portanto ocasião propícia para tomar mais profunda
consciência e para elaborar juntos itinerários espirituais e formativos
apropriados que favoreçam a cooperação entre as Igrejas e a preparação
de novos missionários para a difusão do Evangelho neste nosso tempo.
Contudo não esqueçamos que o primeiro e prioritário contributo, que somos
chamados a oferecer à acção missionária da Igreja, é a oração.
"A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos diz o Senhor . Pedi,
portanto, ao dono da messe para que mande trabalhadores para a sua
messe" (Lc 10, 2). "Em primeiro lugar escrevia há cinquenta anos o Papa Pio XII
de venerada memória rezai pois, Veneráveis Irmãos, rezai mais. Recordai-vos
das imensas necessidades espirituais de tantos povos ainda tão distantes da
verdadeira fé ou privados de socorros para perseverar nela" (AAS, cit. p. 240).
E exortava a multiplicar as Missas celebradas pelas Missões, observando que
"isso responde ao desejo do Senhor, que ama a sua Igreja e a quer extensa e
florescente em todos os ângulos da terra" (Ibid., p. 239).
Queridos irmãos e irmãs, renovo também eu este convite sempre muito
actual. Propague-se em todas as comunidades a coral invocação ao "Pai
nosso que está no céu", para que venha o seu reino à terra. Faço apelo
sobretudo às crianças e aos jovens, sempre prontos para generosos impulsos
missionários. Dirijo-me aos doentes e aos sofredores, recordando o valor da
sua misteriosa e indispensável colaboração na obra da salvação. Peço às
pessoas consagradas e especialmente aos mosteiros de clausura que
intensifiquem a sua oração pelas missões. Graças ao compromisso de cada
crente, alargue-se em toda a Igreja a rede espiritual da oração em favor da
evangelização. A Virgem Maria, que acompanhou com solicitude materna o
caminho da Igreja nascente, guie os nossos passos também nesta nossa
época e nos obtenha um novo Pentecostes de amor. Em particular, torne-nos
conscientes de que todos somos missionários, isto é, enviados pelo Senhor a
ser suas testemunhas em todos os momentos da nossa existência. Aos
sacerdotes "Fidei donum", aos religiosos, às religiosas, aos leigos voluntários
comprometidos nas fronteiras da evangelização, assim como a quantos de
vários modos se dedicam ao anúncio do Evangelho garanto uma
recordação na minha oração, e concedo com afecto a todos a Bênção
Apostólica.
Vaticano, 27 de Maio de 2007, Solenidade de Pentecostes.
BENEDICTUS PP. XVI
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